• Carol Combina

Carta ao intruso


Escrevo estas linhas para registrar os pensamentos que passam pela cabeça e, escrevendo, tentar organizar os pensamentos em meio ao caos.


Senhor vírus, eu mal te conheço e dou graças aos céus por isso, mas mesmo assim te sinto tão próximo que, de certa forma, você parece estar sempre presente na minha vida.


Você é tão pequeno e ao mesmo tempo, tão gigante! Em todos os lugares que eu vou, em todos os momentos do meu dia, lá está um lembrete da sua existência.

Você está presente nas entradas dos estabelecimentos, nos sorrisos ocultos por máscaras, nos idosos que aparecem tristes nas janelas das casas, nas portas de comércio fechadas, nas filas dos desempregados...


Você não foi convidado e mesmo assim invadiu a vida de todos sem nenhuma cerimônia. Não faz distinção de cor, classe social ou idade; você afastou as pessoas, entristeceu as casas, espalhou luto e dor!


Quando pensamos que você havia se cansado e já estava saindo de nossas vidas, de repente, você volta mais feroz e colérico, devastando famílias e cidades inteiras.


Só queria te dizer que estou cansada! Cansada de você ser o centro das atenções, cansada de tentar fugir de você, cansada de me esconder e ser privada do meu direito de ir e vir. Quero sorrir sem máscara, respirar ar puro sem medo de você, quero abraçar as pessoas e voltar a me sentir livre.


O mais estranho é que apesar de só trazer tristeza e dor, você também ensinou muita coisa.

Ensinou que somos finitos, que não temos a eternidade pela frente, que devemos fazer com que o dia de hoje seja incrível, pois o amanhã é incerto.


Aprendemos que podemos fazer planos, mas não somos donos do futuro e que a resiliência é peça fundamental para enfrentar as adversidades.


Você ensinou a importância do abraço, que não conseguimos viver sozinhos e isolados, e de uma forma ou de outra precisamos uns dos outros.


Nos ensinou que temos tanto a agradecer que nem percebemos. Esbravejamos por problemas fúteis enquanto tantos outros lutam para levar ar aos pulmões. Sentimos insegurança pelo futuro, ao passo que muitos não possuem um, pois foram arrebatados desse mundo sem poder nem mesmo dizer Adeus.


Por isso, eu digo senhor vírus: eu te odeio pelo que você faz, mas te respeito por tudo que nos ensinou...

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